terça-feira, 31 de março de 2009

Viver sempre também cansa!

Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo..."


José Gomes Ferreira

segunda-feira, 30 de março de 2009

Skank - Resposta

Bem mais que o tempo que nós perdemos
Ficou pra trás também o que nos juntou...

Lulla Bye "A Bigger Plan"

Gosto disto...

Sérgio Godinho- Só Neste País

Só mesmo neste país...

domingo, 29 de março de 2009

Bem-me-quer...


... mal-me-quer...muito...pouco...nada...

Domingo...

Para a maioria das pessoas, a segunda-feira é o pior dia da semana. Não me incluo nesse grupo. Eu gosto das segundas - feiras :-) O que eu não gosto (MESMO!) é dos domingos! Há lá dia mais chato e inútil do que o domingo?...

sábado, 28 de março de 2009

Gotan Project

Shall We Dance?...

Vai Alta No Céu...


Vai alta no céu a lua da Primavera
Penso em ti e dentro de mim estou completo...
Alberto Caeiro

sexta-feira, 27 de março de 2009

Chamo-Te

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que não quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a Terra
Em Primavera feroz precipitado.

Sophia de Mello Breyner Andresen

The Cure - Friday I'm In Love

The Cure traz-me tão boas recordações :-)

Concursos...

Chegou a hora de decidir...Que fazer? Pra onde concorrer?...Continuar aqui ou mudar de Agupamento/Concelho?...Tenho saudades de quando decidiam por mim...Fico sempre naquela "Não sei que faça: se fico, se vou embora!..." Por um lado, apetece-me mudar, por outro, já tou habituada a estar aqui, já conheço as pessoas, já sei com o que conto... Enfim, ainda tenho 2 semanas pra pensar no asssunto...

Gran Torino

Que filme! Tudo é perfeito! Acabo de ver e ainda estou sem palavras...Simplesmente lindo e comovente!

quarta-feira, 25 de março de 2009

Põe-me as mãos nos ombros...

Põe-me as mãos nos ombros...
Beija-me na fronte...
Minha vida é escombros,
A minha alma insonte.

Eu não sei porquê,
Meu desde onde venho,
Sou o ser que vê,
E vê tudo estranho.

Põe a tua mão
Sobre o meu cabelo...
Tudo é ilusão.
Sonhar é sabê-lo.

Fernando Pessoa

terça-feira, 24 de março de 2009

As doenças...

Acabo de chegar de uma consulta médica. Duas horas de espera (não se admite!). Como já sei como as coisas funcionam, vou prevenida com o meu "livro de bolso". A leitura foi sendo acompanhada por uma espécie de ruído de fundo que mais parecia uma competição para ver quem tinha mais doenças. Se A dizia que tinha problemas de tiróide, B tinha problemas de tiróide e de hipertensão; C já tinha tiróide, hipertensão e diabetes...D, então, nem se fala!...Haja paciência! Mas que raio as pessoas tanto gostam de falar de doenças?! Que prazer mórbido é este?... Dah!!!!

Tracy Chapman - For My Lover

Começo a conhecer-me. Não existo.

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e o que os outros me fizeram,
Ou metade desse intervalo, porque também há vida...
Sou isso, enfim...


Álvaro de Campos

segunda-feira, 23 de março de 2009

Coisas que me tiram do sério...

Ligar a net móvel (seja TMN, VODAFONE ou KANGURU) e não ter rede em parte nenhuma da casa! Fico possessa! Porcaria de serviços, essa é que é essa!

Mudam-se os tempos...

Há uns anos atrás, lembro-me do escândalo que foi a distribuição de electrodomésticos por parte de um autarca do Norte. Pura propaganda política, diziam! Hoje, os tempos são outros, estamos na era das TIC, por isso, em vez de frigoríficos e torradeiras, dão-se portáteis, essas ferramentas de trabalho a que os nossos jovens dão tão bom uso, nomeadamente, para jogar, falar nos chats, praticar cyberbullying...Tudo, claro está, a bem do progresso e do sucesso escolar de todos...

domingo, 22 de março de 2009

Amy MacDonald - This Is The Life

Muito fixe esta música :-)

Convites de casamento...

Contam-se pelos dedos os convites aos quais disse "sim". Um ou dois familiares e meia dúzia de amigos. E, mesmo esses, só depois de muita pressão e até alguma chantagem emocional...Sim, é verdade, DETESTO casamentos (mas que fique esclarecido que não tenho nada contra o casamento!). Todo o ritual é um aborrecimento pegado. Seja no religioso, seja no civil. A "seca" é a mesma...É a toilette (à qual nãoligo nenhuma, diga-se), é a prenda a dar, é a sessão fotográfica com os noivos (há momento mais ridículo?...), é o almoço ou jantar (conforme a hora do casório) com aqueles pratos esquisitos de quem ninguém gosta, mas que agora são "chiques"...E, como se isto tudo não bastasse, há-de chegar o momento em que um infeliz qualquer começa a bater nos pratos e a gritar: "BEIJA!BEIJA!" . Sem comentários...
Enfim, vem isto tudo a propósito porque, hoje, recebi um convite de casamento. E a minha questão é esta: por que raio fui convidada se não tenho qualquer relação de amizade ou mesmo de circunstância com os noivos?... Simplesmente porque ainda somos da família (já afastada, mas mesmo assim, família). Mas porquê? A ela digo "olá" quando nos vemos, nada mais, a ele, "nunca o vi mais gordo" (nem me interessa!). Pra concluir e como não sou de aceitar convites por "obrigação", agradeci e disse que não. Sem mais explicações. A propósito, será que mesmo não indo, devo dar prenda?...Só me faltava mais essa...

sábado, 21 de março de 2009

Love Actually

(Re)vi hoje e esta é, sem dúvida, a melhor cena do filme! Lindo!!

Glicínias


Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!


Florbela Espanca

Pensamento do dia...

"A poesia é o que há de íntimo em tudo."


Victor Hugo

sexta-feira, 20 de março de 2009

(Pre)conceitos

Quer queiramos quer não, todos nós os temos. Seja em relação ao aspecto físico, às relações sociais, às causas que se defendem ou às decisões que se tomam. Tudo tem a ver com pre-conceitos, com ideias pre-concebidas que fazemos uns dos outros. Por vezes, acertamos no diagnóstico. Na maioria das vezes, não. Há que ir além das aparências e do "diz que disse ". Nem sempre o que parece é. Parecer e ser são coisas muito diferentes, há que saber distingui-las. Sem juízos de valor. Sem preconceitos.

Sou eu, a Primavera!

Cheguei, por fim,
por caminhos juncados
de flores,
por entre borboletas multicores
e sonhos alagados
de ternura...

Sou eu
a que enche de doçura
os olhos apagados
da quimera...

Sou eu,
a Primavera!

Maria Adelaide Vasconcelos

quinta-feira, 19 de março de 2009

Uma pequena flor

Uma flor
uma pequena flor
que eu colhi
só a pensar em ti...



O meu Pai

Dizem que o Pai tem um dia
que devemos festejar,
mas todos os dias são seus
quando o sabemos amar.

O Pai é um livro aberto
onde há tanto para aprender;
é o abraço apertado
que nos ajuda a crescer.

O Pai é a segurança
dos dias de maré alta;
só sabemos quanto vale
quando um dia nos falta...

José Jorge Letria

terça-feira, 17 de março de 2009

Dá que pensar!...

Não consigo perceber este interesse mórbido que as pessoas têm pela desgraça e pela tragédia alheia. Faz-me imensa impressão. Não é que eu ignore essas notícias, mas, se puder, passo-lhe ao lado. Não páro para ver o acidente na estrada, não vejo as reportagens intermináveis a explorar a dor dos outros, não leio as notícias "choque". Sei que elas existem, claro, mas não cultivo o hábito de as ler. Vem isto tudo a propósito, porque, desde a semana passada, onde quer que vá, com quem quer que esteja, só ouço falar no pai que se esqueceu do bebé no carro. Uma tragédia que nos chocou a todos. Como sobreviver a tal dor? Francamente, acho que não é possível... Mas há outra questão que se me põe e que é a seguinte: que mundo é este que permite que situações destas aconteçam? Definitivamente, os nossos valores estão virados do avesso. Trabalha-se tanto, luta-se tanto para dar o melhor à família para a qual, afinal, nem sequer se tem tempo!... Dá que pensar!...

segunda-feira, 16 de março de 2009

Paulo Praça - A princesa que não quis ser salva

O Tempo Passa? Não Passa

O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer toda a hora.

E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama escutou
o apelo da eternidade.


Carlos Drummond de Andrade

domingo, 15 de março de 2009

LA UNION - HOMBRE LOBO EN PARIS

Esta vai com dedicatória :-)

Gosto...

Gosto muito destes dias assim, primaveris, com temperaturas amenas que já nos permitem vestir manga curta e calçar chinelos:-)
Gosto de observar este renascer da Natureza, numa explosão de cores, sons e cheiros.
Gosto de andar pelos campos e montes a observar as flores, as árvores, os pássaros... Gosto do cheiro da terra. Gosto de me deitar na erva verdinha a olhar para o céu. Gosto de ver os campos cobertos de malmequeres. Gosto das flores silvestres que cobrem os campos e montes de mil cores. Gosto do som do ribeiro a descer pela encosta, como um lamento...Gosto de me perder nos meus pensamentos em dias assim...

Natureza em flor...








sábado, 14 de março de 2009

Apetecia-me estar aqui...


(Praia do Tonel - Sagres)

"Se"

Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na luta por um bem definitivo
Em que as coisas de amor se eternizassem.


Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 13 de março de 2009

E os dias, sempre os mesmos...

Pensei que fosse necessário uma vida para sentir a desilusão que sinto:-(

Lágrimas ocultas

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!


Florbela Espanca

quarta-feira, 11 de março de 2009

Magnolia - Wise Up

WISE UP!

Só me apetece...

...GRITAAAAAAAAAAR!!!!!!!!

Tu tens um medo:

Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.


Cecília Meireles

terça-feira, 10 de março de 2009

Excelente!

A a entrevista de Medina Carreira, ontem, na SIC. Felizmente que ainda há pessoas lúcidas e frontais neste país.

domingo, 8 de março de 2009

No Nosso Dia...

... merecemos uns "miminhos":-)






No Woman No Cry - Bob Marley

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.


Carlos Drummond de Andrade

"Andar de cavalo pra burro"...

Enquanto professora contratada, andei de "casa às costas" de norte a sul do país, durante sete anos. Vinculei no distrito de Faro e por lá fiquei dois anos até conseguir mudar para o meu distrito (Porto). Com quinze anos de serviço, achei que já tinha a estabilidade profissional que me permitiria comprar casa. Assim o fiz. Hoje, com (quase) vinte anos de trabalho, segundo o novo modelo de concursos de professores, corro o risco de ser colocada a dezenas de quilómetros da minha área de residência se não quiser ir parar à mobilidade especial...Chamo a isto "andar de cavalo pra burro" e, acima de tudo, falta de respeito pela vida das pessoas.

sábado, 7 de março de 2009

Pudesse Eu

Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!


Sophia de Mello Breyner Andreson

REVISTA DE ACTUALIDADES:

A hippie-beta-chic (parola) comprou uns sapatos e correu para o twitter e para o face book. Estava com medo de chegar late por causa do car jacking embora também receie o home jacking. Sem nada para fazer, nem fitness, a associação de ideias fá-la ler a amiga ( também parola) e excitam-se as duas com o último hiper link para o Courbet-tete-eut.Trocam muitas sms por causa do spread e dos lay-off e combinam encontrar-se no parking. Planeiam ir numa low cost para um destino nature friendly e beber muitos shots. E palitar os dentes.

Sinais dos tempos...

Ultimamente, as minhas idas ao cinema têm-me deixado bastante irritada e, sobretudo, preocupada. Não pelos filmes, que têm sido muito bons, mas pelos comportamentos que tenho observado. A falta de civismo é tal que me tira do sério e só me dá vontade de pregar uns valentes estaladões a gente tão parva e mal educada. Conversa-se e comenta-se o filme em voz alta, fala-se ao telemóvel, batem-se palmas, mandam-se "bocas"...Enfim, um verdadeiro suplício para quem gosta realmente de cinema como eu. Mas, o que mais me tem chocado, é ouvir risos e até gargalhadas gerais, em cenas como n"A Troca" em que a personagem é castigada com choques eléctricos ou em "Quem quer ser bilionário?" quando o personagem principal está a ser torturado...Onde pode estar a piada em cenas destas?!...Francamente, não consigo perceber...

Nem mais!

«Quem sai bem desta história? José Eduardo Martins, obviamente. Digo-o, de novo, sem ponta de ironia. A credibilidade e o bom nome do Parlamento não passam por se lá entrar de gravata, nem por se tentar falar ou ter um comportamento acima das reais possiblidades. O "vai para o caralho" de Martins foi das coisas mais sinceras que se têm ouvido naquela casa e isso é positivo.»

sexta-feira, 6 de março de 2009

A UN MINUTO DE TI-MIKEL ERENTXUN

As avaliações da Ministra

Ontem no Jornal da Noite da SIC, Maria de Lurdes Rodrigues ao lado de Sócrates fala com uma criança que aparenta ter 4 anos.

- Que desenhas tu? - Pergunta a Ministra
- A minha gata Tica.
- Escreve lá o nome dela.
- Eu ainda não sei escrever - defende a menina envergonhada
- Então diz só as letras.

publicado por Nilton

link do post

quinta-feira, 5 de março de 2009

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: Fui eu?
Deus sabe, porque o escreveu.


Fernando Pessoa

Pó de Arroz - Tributo a Carlos Paião

Tá muito gira esta versão de "Pó de Arroz".Gosto:-)

quarta-feira, 4 de março de 2009

As pessoas sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão."

Ó vendilhões do templo
Ó constructores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Lapidar!

O artigo de Manuel António Pina no JN de ontem:

Crime e castigo

«Noticia o JN que está marcado para o dia 20 de Abril, no Tribunal da Maia, o julgamento de um homem que, em 2007, terá arrombado um galinheiro e furtado duas galinhas no valor de 50 euros.

A Justiça tarda, mas chega. O criminoso andou mal e merece justa punição, quer pela mediocridade de fins quer pela ruralidade de meios. Gente como ele, que pilha galinhas em vez de fundar um banco e pilhar as contas dos depositantes, ou como aquela septuagenária que não pagou uma pasta de dentes num supermercado em vez de pedir uns milhões à Caixa, comprar o supermercado na bolsa e igualmente não o pagar, vendendo-o depois à Caixa através de um "offshore" pelo dobro do preço (ou vendendo-lho mesmo antes de o ter comprado), não tem lugar no Portugal moderno e empreendedor. Ainda por cima, deixou-se apanhar. Se calhar, até confessou, em vez de invocar lapsos de memória. E aposto que nem se lembrou de se divorciar antes de ser preso, pondo os 50 euros a salvo na partilha de bens. Não queria estar na pele do seu advogado, não há Código de Processo Penal que valha a um caso destes. É condenação mais que certa».

segunda-feira, 2 de março de 2009

Dói-me...

Hoje dói-me pensar,
dói-me a mão com que escrevo,
dói-me a palavra que ontem disse
e também a que não disse,
dói-me o mundo.
Há dias que são como espaços preparados
para que tudo doa.


Roberto Juarroz